sexta-feira, setembro 19, 2014

Catalunha 1640

Portugal, em data e dia cujo significado maior sofreu um atentado quando 1 de dezembro deixou de ser feriado neste país, soube merecer a sua independência, lutou e conseguiu restaurar a sua soberania o que lhe tem permitido ao longo dos séculos e ao sabor dos seus governantes, conhecer a glória e a vergonha, ser senhor de si e, reptilineamente curvar-se humilhado por razão de governantes fracos e imbecis, ao longo dos séculos, até ao presente. Mas assumimos os nossos sucessos e as nossas desgraças e humilhações como gente soberana. Qualquer que seja a situação só há um responsável: o povo português soberano e independente. Nada é maior do que a Independência, nada é mais soberano do que saber que os falhanços e as glórias são nossas e nossas apenas. Não temos uma tutela externa a quem culpar ou agradecer. Somos nós. Somos Portugal.
A Catalunha merece, como Nação, ter direito a reclamar a autodeterminação e a independência se esse for o seu destino decidido em comum. Pode também vir a ter o mesmo resultado da Escócia, com uma maioria catalães a entenderem que não querem ser responsáveis pelo bom e pelo mau que lhes possa suceder no futuro, mas serão eles a decidir.
A minha gratidão e solidariedade vai para o povo catalão, por nos terem permitido ter sucesso na nossa vontade de sermos donos do nosso destino, qualquer que seja.        

A independência tem de se merecer

Seja pela força das armas, seja pelo voto democrático e ato superior de aceitação da vontade dos outros, ao mesmo tempo que afirma a sua própria, a Independência é algo que tem de se merecer. Os escoceses mostraram a sua vontade e uma parte significativa achou que não merecia ser independente. Não é caso de se dizer que decidiram continuar sob o jugo inglês, ou que demonstraram por maioria que desejavam continuar sob a tutela soberana de Londres. Como a Independência é coisa que só se tem quando se merece, os escoceses demonstraram na sua maioria que preferem ter um primeiro-ministro escocês de quando e vez em Londres a arcarem com a responsabilidade de serem donos do seu destino. Acharam que não mereciam. Ao contrário dos Irlandeses, décadas antes, os escoceses preferiram o conforto da Rainha e o alívio dos mercados.
A Escócia merece pertencer ao Reino Unido e partilhar o caminho de quem lhes extorquiu a Língua própria e lhes emprestou a sua. Como noutras ocasiões, nestes 300 anos, os escoceses tiveram a liberdade de pensar e decidir o seu destino pela sua própria cabeça, mas no último momento, decidiram pensar o que Londres decidiu. Não há promessa que valha ser substituto da independência. Mais uma vez os escoceses preferiram as promessas inglesas. Os escoceses, afinal e por toda a simpatia que me merecem, não estão capazes de ser independentes. Tomaram a decisão sensata, de ser governados por quem sabe e tem experiência em governar outros. Não será por causa disso que deixarei de beber um bom whisky de malte escocês e de com ele saborear a Liberdade que os que o produziram não sabem o que é.     

A Escócia e o lago da Independência


Não faltam declarações, dos ingleses, naturalmente, mas igualmente das vozes indistintas dos mercados e ameaças de entidades financeiras sediadas em Edimburgo, contra a possibilidade de os escoceses escolherem livremente o seu destino.

São as mesmas vozes que sobre o destino de outros países não alertaram para os mesmos medos e ameaças à estabilidade económica e financeira, política e de integração internacional. Foi assim com as realidades saídas da 2.ª Guerra mundial, URSS, Jugoslávia, Checoslováquia e depois, o Kosovo.

O desmembramento da URSS foi vista como uma vitória da liberdade sobre a opressão comunista. A Jugoslávia foi desagregada não só por tensões internas (a que não podem ser estranhas pressões externas de que não se fala) com a intervenção ativa da NATO, numa guerra fratricida que levou ao estabelecimento de 6 países minúsculos cada um menor que o outro. Enquanto estes países se reconfiguravam, e se matava e morria em nome de língua, nação e religião, ninguém referiu questões de viabilidade de qualquer destes países nascentes, os mercados não puxaram os cabelos, os juros não subiram. Nada do que agora parece ser vital no que respeita à Escócia era minimamente relevante, naquele tempo.

Percebe-se porquê, não era o colonialismo inglês que estava em causa. O mesmo sucede com a Catalunha. A única reticência surgiu quando o Kosovo quis sair da Sérvia. Aí, a Espanha e outros países com problemas de secessionismo, mostraram a sua relutância, mas o Kosovo tornou-se independente.

Porque é que a Escócia não pode voltar a ser independente? A Irlanda conseguiu libertar-se dos ingleses, em que é que os Escoceses são diferentes? Como é que a UE pode ser respeitadora do direito à autodeterminação e independência dos povos, mas só dos que ficam longe como o Sudão do Sul?

Os povos têm direito à autodeterminação e independência sem pedir autorização aos mercados.

Portugal tem o dever de apoiar uma nação que foi determinante na restauração da sua independência. A Catalunha foi esmagada pelo expansionismo castelhano em benefício de Portugal. Solidariedade é o mínimo que se pode oferecer à Nação Catalã. O que vai fazer a UE quando a Flandres se separar da Bélgica? Impedi-la de ficar na União Europeia?