quinta-feira, janeiro 05, 2012

Reflexão sobre um ex-feriado nacional (RIP)

Em novembro de 1908 Miguel de Unamuno dizia assim sobre os portugueses: "Dentro de uns dias, a 1 de dezembro, celebrarão as festas da restauração da nacionalidade, de ter sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira. Pobre Portugal."
No presente, graças à preguiça de que nos acusam os do Norte da Europa, e o Álvaro e seus correlegionários assinam por baixo, quiçá sentido-se verdadeiramente preguiçosos e com vontade de expurgar essa condição, não de si, mas da Nação inteira para os salvar, os portugueses não poderão mais celebrar o seu dia da restauração no momento próprio, e historicamente reconhecível, com um dia de ócio dedicado às deusas Liberdade e Pátria.
Em contrapartida, este Governo oferece, diariamente, aos portugueses, razão de sobra para perpetuar o segundo elemento apontado por Unamuno. Tal como em 1908, em 2012, os portugueses poderão falar do que melhor conhecem das dádivas dos seus governantes: a bancarrota e a intervenção estrangeira. Pobres portugueses.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

De repente, não mais que de repente

De repente, não mais que de repente, ouvir o discurso de Pedro Passos Coelho no tempo em que chumbou o famoso PEC IV e ouvir Pedro Passos Coelho agora é um deleite sobre o que disse então ser "tratar Portugal e os portugueses como coisa sua, dando mostras da sua total falta de cultura democrática" e "impor agora novos aumentos de impostos, cortes nas pensões, no serviço nacional de saúde ou na rede escolar, confirma a estratégia do governo [o do Sócrates, claro] de transformar medidas de emergência, que pelos sacrifícios que impõe aos cidadãos, apenas devem ser assumidas em situações extraordinárias, e de modo conjuntural, em soluções correntes normais a aplicar nos próximos anos", parece que agora já estamos em situações extraordinárias temos tudo aquilo para os próximos anos. Pedro Passos Coelho sabia bem do que estava a falar.
Também me lembro agora, de repente, não mais que de repente, do alarido que Pedro Passos Coelho fez sobre o fundo de pensões da PT servir para baixar o défice de 2010, agora com o Fundo de Pensões dos Bancários a servir para pagar o défice de 2011, nada a dizer.
Sobre a fuga dos grandes grupos para a Holanda já nem vale a pena dizer nada, nem a amarga ironia sobre o incentivo governamental à emigração.
De repente, não mais que de repente, Pedro Passos Coelho é o homem e a sua circunstância. Ontem um e hoje o seu contrário. Ontem mentiu aos portugueses, hoje diz a verdade, ou o contrário ou nem hoje nem ontem. Pergunto-me hoje, se ontem Sócrates mentia, e hoje está tudo bem porque agora não é só Pedro Passos Coelhos a mentir, é o Governo em uníssono e a uma só voz. Ou talvez se estejam tão só e apenas a marimbar (que palavra mais desenxabida) para os portugueses, tratando-os "como coisa sua e dando mostras da sua total falta de cultura democrática".
De repente, não mais que de repente decidi que eu não quero emigrar... mas também não gostava de ficar aqui sozinho. Já estou farto de ser sempre eu a pagar impostos e de ter a sensação de que os que antes fugiam aos fisco o continuam a fazer hoje. Talvez eu deva ir para a Suécia... Não fora o frio.