terça-feira, agosto 12, 2014

Andanças

Fui ao Andanças, este ano, Alto Alentejo, bem diferente do Baixo. Num dos palcos, no sábado, anunciava-se Música Africana, e eu lá fui. Sabendo da existência de brancos africanos, preconceituosamente, achei estranho que nenhum dos que subiam ao palco e pegavam nos diversos tipos de tambores (instrumentos de precursão) fossem negros. Quando se iniciou o espetáculo o que me veio à memória foi a declaração eleitoral de passos coelho como "o mais africano de todos os candidatos" não sei se por lá ter passado uns anitos da juventude (marcantes sem dúvida, são sempre), ou por razão de matrimónio e correspondente descendência mestiça, exemplo e fruto da nossa relação secular com povos, os mais diversos, mas no exemplo vertente, praticado no centro do império desfeito.
Pensei, era a isto que passos coelho se referia, homens brancos aculturados e exemplos da cultura musical africana. E como é comum, segundo dizem, com o intensificar dos tantãs que se intensificavam, entrei numa espécie de transe e comecei a "ver" a angolana Assunção Cristas na dançarina branca, a angolana Paula Teixeira da Cruz, e Miguel Relvas, que tal como passos coelho não nasceu em Angola, lá foi marcado na infância, pela cultura e pelos sons da terra quente e do seu povo.
Foi uma revelação, uma epifania, num governo polvilhado de tantos africanos, nenhum era negro. Com tanto africano negro em Portugal nenhum é embaixador, um ou outro deputado. Salazar investiu tanto nas celebrações do Mundo Português e hoje, o governo de Itália ou França têm representantes do resultado do seu passado colonial enquanto o nosso parece um governo de refugiados oriundos dos Governos de Pik Botha ou de Ian Smith da saudosa Rodésia. Acho que percebi a ternura que a Marine Le Pen tem pelos portugueses: das ex-colónias sim, mas brancos.
Já é suficientemente mau ter um governo que num dia diz uma coisa e no outro o seu contrário. Que tem dificuldades em lidar com a Lei Fundamental e de agir de acordo com a Constituição em vigor quando foram eleitos pelo bom povo português e que ainda os rege.
Foi muito interessante a minha ida ao Andanças, por vários motivos, mas este momento foi claro, foi quase como um acordar para o entulho histórico do nosso passado colonial.
Os países da CPLP têm pouco de que se queixar. Quando viemos embora não deixamos nada nos vazadouros. Podemos ter deixado as casas e as terras (é difícil de meter na mala e carregar no avião) mas deixámos tudo limpinho.
É claro que a maioria dos que regressaram, ou aqui chegaram pela primeira vez (porque não retornaram a um lugar onde já tivessem estado),  não são do calibre daqueles que hoje nos governam, mas os exemplares que se destacam são assim, como dizer, muito salgados, com travo de oliveira e aroma de costa.